Território

NA MIRA DO ESTADO, AS FAVELAS

QUEM PAGA O PREÇO MAIS ALTO

Você já se perguntou o tamanho dos prejuízos provocados pela violência do Estado para moradores de favelas e periferias? Toda a sociedade brasileira perde com a guerra às drogas, entretanto, para alguns a conta é muito mais alta. Esse é o cálculo que o Drogas: Quanto Custa Proibir fez em sua quarta pesquisa inédita: “Favelas na Mira do Tiro: impactos da guerra às drogas na economia dos territórios”.

Entrevistamos 800 moradores dos complexos da Penha e Manguinhos, ambos na Zona Norte do Rio de Janeiro, territórios com a maior incidência de tiroteios envolvendo agentes de segurança entre junho de 2021 e maio de 2022, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Também ouvimos relatos de todos os 303 comerciantes e prestadores de serviços da Vila Cruzeiro e Mandela de Pedra, favelas com mais registros de tiroteios nesses complexos.

Como mostramos na pesquisa, além do terror, a violência das ações policiais deixa marcas visíveis na vida dos moradores: portões arrombados, perfurações nas paredes, bens destruídos, interrupções de serviços públicos como luz, água e internet. Os tiroteios quase diários ainda impedem que as pessoas cheguem ao local de trabalho, ou que os comerciantes locais abram as portas.

Essas interrupções resultaram em 17 horas sem água; 36 horas sem energia elétrica; 34 horas sem internet e 27 horas sem coleta de lixo para todos os moradores dos complexos no ano anterior à realização da pesquisa.

Somados os prejuízos na renda por dias de trabalho perdidos e o custo de reparo/reposição de bens individuais destruídos durante operações policiais, o valor total das perdas é de aproximadamente R$14 milhões para todos os moradores dos complexos. Os comerciantes e prestadores de serviços tiveram uma perda de 34,2% do faturamento, que adicionada aos custos de reparo/reposição de bens danificados acarretou em um prejuízo total de R$2,5 milhões por ano.

Vivos e Livres - Ilustração: Renato Cafuzo

O MEDO COMO ROTINA

As operações policiais impõem uma rotina de medo e insegurança aos moradores e afetam a vida de milhares de pessoas. O estudo mostrou que 87,9% dos entrevistados relataram a ocorrência de ações da polícia nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre os que exercem atividades remuneradas e souberam de uma ou mais operações no período, mais da metade (60,4%) ficou impedida de trabalhar por causa desses episódios.

Um dado estarrecedor revelado pela pesquisa são os relatos dos moradores com denúncias diretas à polícia como “quebraram o carro” ou o “caveirão passou por cima”. Apesar da circulação e consumo de drogas serem uma realidade em toda a cidade do Rio de Janeiro, são as favelas que sangram e sofrem com os prejuízos causados pela violência do Estado, que escolhe impor a guerra às drogas como política pública para esses territórios.