Por uma outra engrenagem

Flavio Braga
27/09/2021

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No último dia 19, foi lindo ver pelas redes as homenagens em torno do centenário de Paulo Freire. Era possível ver diversos educadores e pessoas que tiveram sua vida transformada pela educação contando como a obra do mestre contribuiu em suas trajetórias. Se o governo federal, que diz aos sete ventos que é patriota, resolveu ignorar solenemente data tão marcante graças às suas loucuras conspiratórias e redes de mentiras, por outro lado foi reconfortante ver movimento tão orgânico de quem precisa ter a sua contribuição ao país levada mais a sério, claro, se quisermos de fato falarmos de transformações possíveis para nossa sociedade. 

Como profissional da educação e, acima de tudo, cidadão que teve sua vida transformada por ela, segui o fluxo. Homenageei o mestre, falando de sua importância além da minha vida profissional e, como bom escritor que se preze, aproveitei o gancho ao fazer alguns textos sobre educação, para minha página da Medium. É um processo contínuo de revisão, revisitação e reciclagem do que levo para a sala de aula, como também uma possível contribuição para trocar experiências com meus pares. Ensinar aprendendo e aprender ensinando, como Freire ensinou.

Esse processo todo acabou me levando também a outras reflexões sobre meu ofício que, infelizmente, não dependem exclusivamente de mim. Como professor que desde a entrada no magistério público atende crianças, jovens e adultos de regiões conflagradas por conta da “guerra às drogas”, preciso, infelizmente, tornar esse fator onipresente na minha prática. Vai desde a chegada ao trabalho, passando pelos improvisos e mudanças de planos por conta de operações policiais, guerra entre facções e a tensão eterna de que o dia de trabalho pode ser interrompido ou marcado por algum episódio relacionado à violência urbana. Desastre maior que a nossa política de segurança, como atualmente é feita, é sua naturalização, como se a guerra fosse o único caminho. Não podemos pensar dessa forma.

Não podemos fazer isso pois precisamos enxergar a engrenagem por inteiro. Qual o custo de operações policiais cinematográficas para a mudança dessa situação? Qual a régua de sucesso dessas intervenções? Se ficarmos restritos aos resultados em torno de apreensões de drogas, combate ao crime organizado, coibição de guerras entre quadrilhas e outros delitos, estamos perdendo de lavada. É urgente admitirmos isso. E irmos além. Como isso tudo interfere na vida das pessoas? E esse cálculo é ainda mais extenso, pois não envolve só a segurança pública. Envolve como essa acaba até mesmo prejudicando em diversos níveis outros serviços públicos. As escolas, hospitais, transporte público não vão funcionar sob chuva de balas. É terrível pensar e ver que essa política de confronto nunca deu certo e, de quebra, prejudica outros serviços. É o Estado se autossabotando. E por extensão, sabota o futuro de nossas crianças e jovens.

Os gestores públicos se gabam tanto em mostrar números, mas ignoram o fato que nem sempre eles falam por si. Uma leitura contextualizada conecta a tragédia que é nossa política de segurança aos números de escolas fechadas diariamente, à dificuldade de preencher quadros de horários das escolas em territórios conflagrados (porque os professores tem medo, logo preferem trabalhar em locais menos perigosos), às notas abaixo da média da imensa maioria dessas escolas nas avaliações externas, às altas taxas de evasão. Tudo isso caminha de mãos dadas com os resultados ineficientes da política do confronto. 

E isso é só a ponta do iceberg.

Ou será que a sociedade, diante disso, acredita que esses fatores ligados à segurança não influenciam no processo de ensino/aprendizagem? Ou que isso tudo não interfere no desenvolvimento e na saúde de nossas crianças ou mesmo que essas armas estão também apontadas para elas? “Efeito colateral” que custa a vida das nossas crianças e jovens também. E sempre reforço: quando falo que custa a vida de crianças e jovens não é só a tragédia de se perder precocemente vidas. É destruir sonhos, possibilidades, oportunidades profissionais, acesso à cultura, lazer, a bens de consumo. É tornar a vida ainda mais difícil a ponto de matar nossas crianças e jovens por dentro. É matar seus horizontes de expectativas e a esperança de qualquer mudança significativa para eles, suas famílias e suas comunidades.

Enquanto o Estado continuar fugindo de assumir a sua responsabilidade na alimentação dessa engrenagem nefasta, vamos continuar colecionando tragédias, desde as que dão manchetes e geram (breve) consternação da sociedade ou as inúmeras que ficam anônimas, dada a banalização desse cenário.  Por extensão, a sociedade precisa entender que endossar isso tudo ajuda a puxar esse gatilho. 

Cabe ao Estado e à sociedade fazerem uma escolha: ou seguem alimentando esse ciclo vicioso ou se rompe com ele. Vidas não podem ser transformadas em números, para contagem de mortos e feridos ou a título de efeitos colaterais de uma guerra ou coisas assim. E entre essas vidas, há uma quantidade dramática de vidas de crianças e jovens que perdemos. Naturalizar essa tragédia é sentenciar a morte do nosso futuro, que leva de ralo também nossa humanidade. Não podemos permitir isso. Que ao menos tenhamos a integridade de fazer isso pelas nossas crianças e jovens.

Flavio Braga

Professor de História, leciona na rede estadual fluminense e municipal do Rio de Janeiro. É também escritor, mantém o Um Blog de Nada desde 2007, que já passou por diversas plataformas – atualmente está na Medium – e um dos fundadores do movimento Rolé Literário de escritores suburbanos. Além de trabalhar no magistério e escrever, Flavio também é músico, sendo vocalista e baixista da banda Outros Caras.

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